Sobre Espiritismo

              Claudio C. Conti

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Texto do mês                                                                               Voltar

Setembro 2020
Natureza da Realidade


A busca pelo entendimento da natureza da realidade, ou seja, dos fundamentos que determinam o que seja a realidade remonta à longa data. Podemos inferir que houve uma mudança de paradigma de relação com o ambiente a partir do momento em que o humano deixou de ser mero coletor para se tornar produtor, seja de alimento ou de utensílios. Sob certo aspecto, também podemos inferir que este novo paradigma corresponderia ao surgimento da consciência de si mesmo, se reconhecendo como integrante do meio, podendo interagir e modificá-lo intencionalmente.

Esta visão integrativa perdura até hoje, porém, em decorrência da exacerbação do egoísmo dos tempos modernos, se transformou em uma relação predominantemente extrativa, a qual causa danos muitas vezes irreparáveis quando a ação humana perdura. A grande questão que precisamos responder é se o planeta Terra continuará fértil e abundante em vida com a continuidade da existência da humanidade. Sabemos que sem a ação humana o planeta prospera, e isto pôde ser observado no pequeno intervalo de tempo em que houve diminuição da mobilidade humana decorrente da pandemia do COVID-19.

Assim, sob o aspecto mais fundamental da pesquisa científica, sempre houve pesquisadores que promoveram o avanço do conhecimento. O foco do pesquisador/cientista é aquilo que não se sabe, enquanto que tudo aquilo que já é de seu conhecimento serve de ferramenta para desvendar o que desconhece. Concomitantemente, verifica se aquilo que considera como verdade está em acordo com novas descobertas. Trata-se, portanto, de um processo dinâmico.

Quanto ao estudioso da Doutrina Espírita, é necessário que o mesmo foco e procedimento investigativo se mantenham em decorrência da grande complexidade dos conceitos. Assim, a atenção deve ser sempre a de aprofundar e aprimorar o entendimento das questões. É preciso lembrar que apenas se compreende, na atualidade, a "ponta do iceberg”.

O Centro de Informações Nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear divulgou, em sua rede social, um esquema em que apresenta sucintamente o procedimento científico de pesquisa, no qual diz que: "Muitas pessoas pensam que os pesquisadores apenas usam o método científico para responder perguntas relacionadas à ciência. Na verdade, você pode aplicar o método científico para quase qualquer problema. A chave é usar os elementos (etapas) para reduzir o viés e ajudar a chegar a uma solução para o problema. O método científico é o padrão no laboratório, mas não se deixe enganar pelo nome. Ele também é usado para resolver problemas cotidianos”[1].

Ainda no mesmo esquema [1], tem-se as seguintes etapas para a pesquisa:

1) Elaborar a pergunta: O que se deseja aprender?
2) Fazer a pesquisa bibliográfica: Pesquise o máximo possível sobre o tema;
3) Construção da hipótese: Preveja uma resposta para o problema;
4) Testar o experimento: Planeje um teste para confirmar ou não a hipótese;
5) Verificar se o experimento funcionou: Registe o que aconteceu durante o experimento;
6) Caso o procedimento do item 5 não tenha funcionado: Há problemas, então, é preciso verificar todas as etapas cuidadosamente;
7) Caso o procedimento do item 5 tenha funcionado: Analise os dados para verificar se a hipótese está correta;
8) Escreva a pesquisa.

Importa ressaltar que, por experimento, pode-se entender uma diversidade de meios, tal como relatos e, até mesmo, a mera observação de ocorrências com o próprio indivíduo ou com outros.

A Doutrina Espírita é multidisciplinar, isto é, requer, por parte do estudioso ou livre pensador espírita, conhecimento em variadas áreas, caso contrário, corre o risco de realizar análises tendenciosas dos fatos e, como consequência, conclusões unilaterais e limitadas. A Doutrina Espírita não é a única com esta característica; a ciência nuclear, por exemplo, também é multidisciplinar, na qual pesquisadores de diversas áreas, tais como engenharia, física e química são necessários para levar a cabo os projetos relacionados.

Para termos noção, em questão duração, sobre um trabalho de pesquisa, uma dissertação de nível de Mestrado, o que é considerado relativamente simples, demanda de dois à três anos, incluindo o período de créditos, para ser finalizada e pronta para ser apresentada para avaliação. Uma tese de nível de Doutorado, bem mais complexa, demanda de quatro à cinco anos, também incluindo o período de créditos, para ser finalizada e pronta para ser apresentada para avaliação. Tanto a dissertação quanto a tese são avaliadas por quatro à seis pesquisadores doutores na área para serem aprovadas. Desta forma, quando se considera um estudo novo, deve-se pensar em trabalho por dois à quatro anos, dependendo da complexidade.

Desta forma, o estudioso ou livre pensador espírita deve ter estas considerações em mente sempre que desejar conduzir avaliações à luz do Espiritismo a respeito de qualquer tema, evitando, assim, conclusões precipitadas, sem profundidade e sem verificação. Devemos lembrar a nossa responsabilidade na divulgação desta Doutrina que foi elaborada com tanto cuidado e esmero por parte da espiritualidade desencarnada e encarnada. Kardec foi primoroso em cuidados para transmitir a informação adequada, sua decisão pelo formato de uma codificação demonstra sua preocupação para que aqueles que viriam posteriormente tivessem à disposição a informação no melhor formato possível para melhor condução de seus estudos.

A nossa condição de espíritos é o fundamento da realidade que vivenciamos, mesmo na condição material dos corpos e ambiente, por isso, a natureza da realidade começa em nós.

Referências:

[1] CIN/CNEN; https://www.facebook.com/cnen.cin/photos/a.517510825003906/2180848528670119/?type=3&theater